Expansão cria abundância

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Campeonatos estaduais com calendário distribuído ao longo do ano, mais jogos, mais empregos, mais formação

A CBF disse uma frase importante no anúncio das novas regras: o objetivo é "oferecer mais jogos à base da pirâmide do futebol brasileiro". Eu concordo com o diagnóstico. E isso mostra bem que a entidade máxima do futebol brasileiro vem ajustando a direção nestes últimos dois anos:

· Expandiu a Série D de 64 para 96 clubes, a maior da história.

· Ampliou a Copa do Brasil de 92 para 126 clubes.

· Fechou o maior contrato de transmissão do futebol brasileiro: mais de R$ 4 bilhões pela Copa do Brasil até 2030.

· E aprovou, junto com os clubes, a redução dos estrangeiros e cota de sub-23 na lista de inscritos, que devolve espaço imediato ao jogador brasileiro no Brasileirão.

São passos importantes, na direção certa. Este artigo, e os próximos, tratam dos passos que proponho a seguir.

A nova regra abre a porta: mais brasileiros nas listas de inscrição. Porém, vaga na lista não é garantia de minuto em campo, e minutagem é o que forma jogador. O Brasil tem quase 900 clubes profissionais registrados na CBF, mas apenas 666 estiveram em atividade em 2025, de acordo com o relatório “Convocados 2026”, mais de 200 clubes nem jogaram. E a maioria dos clubes que jogaram atuou por 3 a 4 meses. Enquanto sete clubes da Série A disputaram mais de 70 partidas em 2024, centenas ficaram parados a maior parte do ano. Poucos clubes com jogos demais, muitos com jogos de menos.


Aqui está um dado que pouca gente olha: quando jogos são oferecidos no segundo semestre, os clubes comparecem. Alguns exemplos deste ano: a Copa Rio reuniu 24 clubes (8 da primeira divisão carioca e 16 das divisões inferiores) disputando vagas na Copa do Brasil e na Série D. A Copa Paulista, 16 clubes. A Copa Santa Catarina, 9 clubes, também oferece vaga na Série D ou na Copa do Brasil. Um deles, da terceira divisão estadual, entrou de olho numa vaga na quarta divisão nacional. Não é falta de vontade. É falta de calendário.

Já no Rio Grande do Sul, dois clubes desistiram da Copa FGF porque a vaga nacional estava em dúvida. O clube do interior não desiste de jogar por falta de interesse, desiste porque a regra muda todo ano, há muito improviso. Essas competições de segundo semestre são decididas e formuladas em cima da hora, com poucos meses de antecedência, sem qualquer previsibilidade de longo prazo.

O Brasil tem uma infraestrutura que nenhum outro país grande tem: 27 federações estaduais e uma confederação nacional, cada uma com a missão e a estrutura para organizar campeonatos, registrar atletas, formar árbitros, mantendo o futebol vivo em cada estado. As 27 federações estaduais são filiadas à confederação nacional, elas colaboram, porém também competem pelo calendário. Foi essa malha que sustentou o futebol brasileiro antes do Brasileirão se formalizar em 1971; antes dele, os estaduais eram o futebol brasileiro. E assim foram criadas as grandes rivalidades e os grandes times de massa.

Que país tem mais de 20 clubes com pelo menos 1 milhão de torcedores (pesquisa AtlasIntel)? O Santa Cruz levou mais de 45 mil pagantes na final da Série D de 2025 na Arena Pernambuco, recorde do estádio. Quarta divisão nacional jogando em estádio de Copa do Mundo. Amigos estrangeiros não conseguiam entender como esses públicos acontecem em divisões tão baixas, eu acho que nem o brasileiro tem noção do potencial do nosso futebol.

Ao trazer clubes, federações e outros atores importantes do mercado para a mesa, a CBF demonstra compromisso de modernizar e melhorar o futebol brasileiro. A ABAF (Associação Brasileira de Agentes de Futebol) também participou das discussões e emitiu nota logo após a divulgação das novas regras. Quem vive o futebol por dentro passou a ser ouvido. É um novo momento.

A proposta que trago ao debate, como próximo passo natural na direção que a CBF começou, é simples de enunciar, porém bem complexa de executar, ainda que necessária: transformar os 27 campeonatos estaduais na quinta divisão nacional, com calendário distribuído ao longo do ano. Não acabar com os estaduais, e sim dar a eles calendário, continuidade, tabela, acesso e rebaixamento. O clube do interior, ou dos estados sem muita representatividade, passaria a jogar 30 ou mais partidas por ano. São jogadores com contratos anuais, não de 90 dias. Mais divisões abrem espaço para mais oportunidades: times B, sub 23, clubes semiprofissionais, futebol amador organizado, tudo conectado até o topo.

O caminho fica claro: estaduais → Série D → Série C → Série B → Série A. Hoje esse caminho existe no papel, mas é opaco e depende de critérios que mudam de federação em federação e a cada temporada. Com a 5ª divisão, cada degrau tem regra clara. Clareza gera investimento: ninguém constrói estrutura para um caminho que não consegue enxergar.

Do ponto de vista do investidor, como planejar um investimento sem saber ao certo como será o próximo ano? Veja o caso das copas estaduais: um investidor pode colocar dinheiro em um clube da terceira divisão estadual, contando com a conquista da vaga na Série D do Brasileiro, um belo atalho. Se a vaga não vem, o projeto provavelmente acaba. Se a vaga vem, o clube perde o interesse em subir os degraus do estadual, pois já figura no Brasileiro. De um jeito ou de outro, o estadual perde valor.

As federações recuperam a importância e se realinham às suas missões. Estados com mais clubes podem promover mais divisões. São Paulo, por exemplo, conta hoje com quatro divisões estaduais. Se fizermos uma conta rápida, 27 estados com 20 clubes por estado, já seriam mais 540 clubes com calendário cheio no Brasil. Muito mais empregos diretos e indiretos. Seguindo esta conta, se cada clube inscrever 30 atletas, já são mais 16.200 empregos, só de jogadores. Somando ainda comissões técnicas e demais setores dos clubes, são dezenas de milhares de empregos diretos.

Vou antecipar duas objeções óbvias. Primeira: "quem paga a conta?" Tratarei disso em um próximo artigo, mas adianto: a conta de hoje também não fecha, e só no mercado de transferências já apareceriam muitas oportunidades, patrocinadores locais também teriam espaço.


O Brasil é o maior exportador de jogadores do mundo: ano após ano, são mais de mil atletas indo para as mais diferentes ligas pelo mundo, segundo dados da FIFA. Cada exportação é receita que pode nascer num clube pequeno. Mais clubes jogando significa mais vitrines, mais mercado interno, mais exportações. Se exportamos 1.000, podemos, quem sabe, exportar 3.000.

Segunda: "somos diferentes, não dá pra comparar com a Europa". É claro que somos diferentes, e é justamente aí que está a vantagem. Nenhum país continental construiu uma pirâmide aberta. Mas nenhum deles tinha o que o Brasil já tem de pé: 27 federações, quase 900 clubes e um país onde futebol é identidade. A infraestrutura existe. O que falta é arquitetura.

A CBF acertou ao expandir para cima: mais vagas nas competições nacionais. Mas tudo isso puxa clubes para dentro do produto da confederação, e esvazia o produto das federações. Eu proponho o movimento complementar, na mesma direção: expandir para baixo, em parceria com as 27 federações, dando calendário anual para os estaduais.

As federações estão no centro dessa transformação. Esta proposta não tira nada delas: aumenta o tamanho do bolo de todos. O estadual deixa de ser um produto de 3 a 4 meses e vira um produto de temporada inteira. A complexidade está nas particularidades de cada federação, é com elas, uma a uma, que o desenho será feito.

No artigo anterior citei que apenas 17 dos 27 estados estão representados nas Séries A, B e C do Brasil, 10 seguem fora. Chegou a hora de incluir todos os estados em um ecossistema integrado, nacional.

Mais jogos, mais empregos, mais minutos, mais jogadores formados, mais exportações, mais negócios. O Brasil não precisa de menos futebol. Precisa de mais futebol, mais bem distribuído.