O PROBLEMA NÃO ESTÁ SOMENTE NA MATÉRIA-PRIMA OU NA FORMAÇÃO. TAMBÉM EXISTE UMA LACUNA CHAMADA TRANSIÇÃO BASE/PROFISSIONAL
Nos dias de hoje, muito se fala sobre a escassez de bons jogadores no futebol brasileiro e sobre a falta de matéria-prima, propriamente dita. Na geração em que vivemos, essa questão precisa ser analisada em um contexto mais amplo.
Alguns fatores contribuem para a escassez de talentos nos dias atuais: a falta do futebol de rua, dos campos de terra e das brincadeiras ao ar livre, além do tempo excessivo que as crianças passam diante das telas. Soma-se a isso a concorrência com o mundo digital, que reduz aquela “sede” de futebol que tínhamos antigamente.
Muitos também apontam que a formação nas categorias de base está sendo conduzida de maneira equivocada. Argumentam que alguns clubes estão focados exclusivamente em vencer, preterindo atletas com desenvolvimento tardio e acabam se esquecendo de formar jogadores. Outros afirmam que determinados clubes priorizam excessivamente as questões táticas, limitando a autonomia e a criatividade dos jovens atletas.
Concordo plenamente com essas duas linhas de pensamento. Todavia, continuamos tendo talentos importantes no futebol brasileiro e formando bons jogadores. Uma prova disso é a quantidade de jovens atletas que seguem sendo negociados com o exterior antes mesmo de estrearem na equipe profissional.
A TRANSIÇÃO DA BASE PARA O PROFISSIONAL É MAL CONDUZIDA
O ponto para o qual gostaria de chamar a atenção, porém, é a transição dos atletas das categorias de base para a equipe profissional. No meu ponto de vista, existe uma lacuna muito grande dentro dos clubes em relação a esse processo, que não recebe a devida atenção.
A forma como essa transição é conduzida — ou, melhor dizendo, a maneira como muitas vezes deixa de ser realizada — pode definir a continuidade da carreira de um atleta e fazer com que muitos talentos sejam desperdiçados.
Existe algum processo institucional para realizar essa transição? Há algum profissional do clube designado para acompanhar esse processo?
Cansei de ver atletas sendo chamados para a equipe principal totalmente fora de contexto: alguns eram escolhidos por um diretor que não acompanhava o dia a dia das categorias de base; outros, pelo treinador da equipe profissional, simplesmente por empatia. Em muitas ocasiões, atletas que apresentavam baixo rendimento ou problemas de comportamento na própria categoria de base também eram chamados para treinar com a equipe principal.
Por quais critérios essas decisões eram tomadas?
Nesse aspecto, vejo uma inversão de valores. Os clubes com menor poder aquisitivo deveriam ser ainda mais organizados em relação a esse processo de transição, pois, em tese, dependem mais dos atletas formados nas próprias categorias de base do que os clubes com maior poder financeiro.
Entendo que cada clube tem seus próprios interesses em relação às categorias de base: alguns as utilizam exclusivamente para negociar atletas ainda durante o processo de formação; outros estabelecem parcerias com o objetivo de dar visibilidade aos jogadores e dividir percentuais em futuras negociações; e há aqueles que realmente precisam aproveitar esses atletas na equipe profissional.
Clubes como o Palmeiras tornaram-se grandes referências quando o assunto é formação e transição para o futebol profissional. Existe um trabalho institucional voltado para cada fase do desenvolvimento do atleta, que inclui indicadores como o número de jogadores oriundos da base integrados à equipe principal, a minutagem anual desses atletas e sua adaptação ao convívio diário no mesmo ambiente de trabalho.
A decisão sobre quais atletas serão integrados à equipe principal não pode ficar exclusivamente a cargo do treinador, até porque essa função apresenta elevada rotatividade, tampouco ser responsabilidade exclusiva de um diretor.
Quando existe um processo institucional bem definido, as decisões tendem a ser mais assertivas, o desperdício de talentos pode ser reduzido e os atletas chegam mais bem preparados à equipe profissional.






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