CATEGORIAS DE BASE: Gasto ou investimento ? Palmeiras é o 4º clube do mundo que mais arrecadou com transferência de atletas da base nos últimos 5 anos.

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Economizar na formação de atletas pode representar uma das decisões mais caras para um clube de futebol.

Existe uma contradição na gestão de muitos clubes brasileiros que precisa ser discutida: enquanto dirigentes procuram alternativas para aumentar receitas, reduzir despesas e equilibrar as finanças, alguns tratam as categorias de base como um departamento que pode ter seus investimentos reduzidos em momentos de dificuldade financeira.

É uma visão equivocada e, principalmente, de curto prazo.

As categorias de base não devem ser encaradas como um gasto, mas como um investimento estratégico. Afinal, poucos ativos de um clube de futebol têm o potencial de gerar tantos benefícios simultaneamente: formar jogadores para a equipe profissional, reduzir a necessidade de contratações no mercado, fortalecer a identidade institucional, conquistar resultados esportivos e, naturalmente, produzir receitas milionárias com negociações de atletas.

O problema é que muitos dirigentes olham para o orçamento da base e enxergam apenas as despesas do presente. Poucos conseguem compreender o patrimônio que pode estar sendo construído para o futuro.

Os números mostram que investir na formação pode ser um excelente negócio.

Um levantamento do CIES Football Observatory, divulgado em abril de 2026, colocou o Palmeiras como o quarto clube do mundo que mais arrecadou com transferências de atletas formados em suas categorias de base nos cinco anos anteriores. Foram 289 milhões de euros, aproximadamente R$ 1,7 bilhão.

O clube brasileiro ficou atrás apenas de Chelsea, Manchester City e Aston Villa. Quando ampliamos o levantamento para dez anos, o Palmeiras aparece na nona colocação mundial, com 356 milhões de euros, aproximadamente R$ 2 bilhões.

Não estamos falando de um resultado construído da noite para o dia. Estamos falando de planejamento, estrutura, metodologia, captação e continuidade de trabalho.

A transformação do Palmeiras em uma referência na formação de atletas passou por decisões estruturais. Entre 2013 e 2015, o clube ampliou sua equipe de treinadores, que passou de quatro para 12 profissionais, e fortaleceu a captação de talentos em diferentes regiões do Brasil.

Os resultados apareceram. Gabriel Jesus, Endrick, Estêvão, Luis Guilherme, Danilo e Vitor Reis são alguns exemplos de atletas que passaram pela formação alviverde e movimentaram cifras expressivas no mercado internacional.

Outro exemplo importante é o Flamengo. Entre 2014 e 2023, segundo levantamento do CIES divulgado em janeiro de 2024, o clube carioca arrecadou 228 milhões de euros com a transferência de 27 jogadores formados em suas categorias de base. Vinícius Júnior, Lucas Paquetá, João Gomes e Reinier fazem parte dessa história.

O Santos também merece destaque. Historicamente reconhecido pela capacidade de revelar talentos, o clube movimentou 223,3 milhões de euros em transferências de jogadores formados na base entre 2010 e 2019, segundo levantamento publicado pelo Esporte Interativo. Neymar, Rodrygo e Gabigol foram alguns dos protagonistas desse período.

Mas existe um dado ainda mais interessante quando analisamos a relação entre investimento e resultado.

Um relatório da Convocados, Outfield e Galápagos Capital, divulgado em 2024, apresentou os investimentos dos clubes brasileiros nas categorias de base entre 2019 e 2023.

O Flamengo investiu aproximadamente R$ 171 milhões. O São Paulo, R$ 144 milhões. O Palmeiras, R$ 142 milhões. Já o Santos investiu apenas R$ 55 milhões no mesmo período.

A diferença é significativa. O Santos, que historicamente construiu sua identidade na formação de jogadores, investiu menos de um terço do valor destinado pelo Flamengo à base naquele recorte.

Isso não significa que o maior investimento necessariamente produzirá o maior retorno. Formação de atletas não é uma ciência exata, e nenhum orçamento garante a revelação de um grande jogador. Mas os números ajudam a demonstrar que a estrutura e a continuidade são componentes importantes para a construção de um projeto vencedor.

O próprio Palmeiras é um exemplo de que o retorno pode superar, em muitas vezes, os recursos destinados à formação. É importante, entretanto, fazer uma ressalva: os valores de transferências divulgados pelo CIES incluem bônus e receitas futuras, e não representam necessariamente o dinheiro líquido que entrou imediatamente nos cofres dos clubes.

E o que acontece com os clubes que não investem?

O primeiro prejuízo é esportivo. Sem uma estrutura adequada, metodologia de formação, profissionais qualificados e planejamento, o clube reduz suas possibilidades de desenvolver jogadores capazes de alcançar o futebol profissional.

O segundo prejuízo é financeiro. Quando não forma seus próprios atletas, precisa buscar alternativas no mercado, muitas vezes pagando por jogadores que poderiam ter sido desenvolvidos internamente.

O terceiro prejuízo é patrimonial. Um atleta formado pelo clube pode representar um ativo negociável, gerar receitas futuras por mecanismos de solidariedade e compensação por formação e, até mesmo, proporcionar economia com contratações.

É preciso compreender também que investir na base não significa apenas construir um centro de treinamento moderno ou oferecer boas condições de alojamento. É necessário investir em pessoas, conhecimento e processos.

Captação qualificada, metodologia de treinamento, preparação física, departamento médico, fisiologia, nutrição, psicologia, análise de desempenho, acompanhamento escolar, formação humana e, principalmente, um processo eficiente de transição para o futebol profissional.

Não adianta investir milhões na formação de um atleta se, ao chegar ao sub-20, ele não encontra oportunidades, ou se, ao completar 18 ou 19 anos, é descartado porque o clube prefere contratar jogadores de fora.

A formação precisa estar conectada ao planejamento do departamento de futebol profissional. Caso contrário, o clube corre o risco de formar jogadores para os concorrentes.

A base precisa ser tratada como uma unidade estratégica de negócio.

Isso exige orçamento próprio, metas, indicadores de desempenho e avaliação permanente. Quantos atletas chegam ao profissional? Quantos conseguem permanecer? Quantos são negociados? Quanto o clube economiza com contratações? Qual é a receita gerada pelas transferências? Qual o percentual de participação econômica mantido pelo clube?

Essas perguntas precisam fazer parte da rotina dos gestores.

Também é necessário abandonar a ideia de que o sucesso de uma categoria de base é medido exclusivamente por títulos. Conquistar campeonatos é importante, mas a principal missão da formação é desenvolver atletas capazes de atuar no futebol profissional e, consequentemente, gerar valor esportivo e financeiro.

Um clube pode conquistar uma Copa São Paulo e não revelar nenhum jogador para sua equipe principal. Da mesma forma, pode não conquistar títulos em determinada geração, mas desenvolver dois ou três atletas que, no futuro, se tornem titulares ou sejam negociados por valores expressivos.

O verdadeiro resultado precisa ser analisado em um horizonte maior.

No futebol, muitas decisões são tomadas pensando no próximo jogo, no próximo campeonato ou na próxima eleição. A formação de atletas, entretanto, exige uma visão de médio e longo prazo. É preciso compreender que o investimento realizado hoje poderá produzir resultados esportivos e financeiros daqui a três, quatro ou cinco anos.

Reduzir os recursos da base para economizar no orçamento de uma temporada pode significar abrir mão de receitas muito maiores no futuro.

A pergunta que os dirigentes deveriam fazer não é quanto custa manter uma categoria de base, mas quanto o clube pode perder deixando de investir nela.

Afinal, economizar na formação pode ser uma das maneiras mais caras de administrar um clube de futebol.


Fontes: GE, TNT SPORTS, LANCE, TERRA e DIÁRIO DO PEIXE. 

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